As arboviroses continuam sendo um dos principais desafios de saúde pública no Brasil. Entre elas estão dengue, chikungunya, zika e febre amarela, doenças que exigem acompanhamento constante dos serviços de saúde e ações de prevenção próximas da população.

Depois do recorde registrado em 2024, quando o Brasil teve mais de 6,5 milhões de casos prováveis de dengue, o cenário mudou. Em 2025, foram registrados cerca de 1,66 milhão de casos prováveis, uma redução de 74,5% em relação ao ano anterior. Até junho de 2026, a tendência de queda continuava: o Ministério da Saúde registrava cerca de 392,8 mil casos de dengue, 73% menos que no mesmo período de 2025. A chikungunya também apresentava redução.

Isso não significa que o problema esteja resolvido. O comportamento das arboviroses pode mudar rapidamente de acordo com as condições climáticas, a circulação dos diferentes sorotipos da dengue e a presença do mosquito Aedes aegypti.

Um cenário que exige atenção constante

As condições climáticas têm influência importante na presença e na reprodução do mosquito. Chuvas, temperaturas elevadas, períodos de seca e a necessidade de armazenamento de água podem favorecer o surgimento de criadouros.

Em julho de 2026, o Ministério da Saúde alertou estados e municípios para a possibilidade de aumento das arboviroses associado às condições previstas com a chegada do El Niño. A recomendação foi reforçar a vigilância, identificar rapidamente os primeiros casos e intensificar as ações de controle do mosquito.

Por isso, mesmo em períodos de menor transmissão, manter as equipes preparadas é importante. A prevenção não precisa começar somente quando os casos aumentam.

A vacinação também está passando por mudanças

A vacinação contra a dengue avançou nos últimos anos. A Qdenga, da Takeda, continua fazendo parte da estratégia do SUS, principalmente para adolescentes de 10 a 14 anos, com expansão da oferta prevista para os municípios.

Em 2026, o Brasil também começou a utilizar a vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan, a Butantan-DV. O imunizante foi aprovado pela Anvisa e possui esquema de dose única, com indicação licenciada para pessoas de 12 a 59 anos. No SUS, a estratégia inicial contemplava pessoas de 15 a 59 anos.

Entretanto, há uma atualização importante: em junho de 2026, o Ministério da Saúde e a Anvisa determinaram a interrupção temporária da estratégia de vacinação com a Butantan-DV para uma reavaliação de segurança após a identificação de eventos adversos que precisaram ser investigados. Portanto, atualmente não é correto tratar a vacina como uma solução já amplamente implantada em todo o país.

Esse episódio também reforça a importância de uma comunicação clara. Informar corretamente a população sobre benefícios, indicações, possíveis reações e atualizações das estratégias de vacinação ajuda a evitar tanto a desinformação quanto expectativas equivocadas.

Onde entra o município?

Grande parte das ações de prevenção acontece perto da população. É no município que agentes de combate às endemias visitam imóveis, identificam possíveis criadouros, acompanham áreas de maior risco e orientam os moradores.

As prefeituras também podem trabalhar com dados epidemiológicos e ambientais para direcionar as equipes para regiões que precisam de maior atenção. O Ministério da Saúde mantém atualmente o Observatório de Arboviroses, com dados atualizados e informações em níveis nacional, estadual e municipal, justamente para apoiar decisões mais rápidas e coordenadas.

Na prática, isso significa que uma campanha municipal pode ir muito além de simplesmente pedir que a população “não deixe água parada”. É possível combinar informação, visitas domiciliares, monitoramento dos casos e ações em locais onde existe maior circulação de pessoas.

Prevenção perto das pessoas

As campanhas podem aproveitar espaços que fazem parte da rotina da comunidade: escolas, unidades de saúde, feiras, terminais, eventos municipais e ações realizadas nos bairros.

Materiais educativos, atividades com crianças, distribuição de informativos e comunicação nas redes sociais podem ajudar a transformar a prevenção em algo mais próximo e fácil de entender.

A participação dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) e dos Agentes de Combate às Endemias (ACE) também é importante, pois esses profissionais estão em contato direto com os bairros e conseguem identificar situações que nem sempre aparecem nos dados gerais.

A escola como espaço de prevenção

As escolas municipais também podem contribuir para a prevenção das arboviroses. Atividades simples podem ensinar crianças e adolescentes a reconhecer possíveis criadouros e entender por que pequenas ações dentro de casa fazem diferença.

Gincanas, cartazes, jogos educativos, visitas orientadas e projetos envolvendo professores e profissionais de saúde são algumas formas de trabalhar o assunto sem transformar a prevenção em uma atividade apenas informativa.

Além de alcançar os estudantes, essas ações podem chegar às famílias por meio das próprias crianças.

Tecnologia e novas formas de controle

O combate ao Aedes aegypti também passou a contar com ferramentas de monitoramento mais modernas. Tecnologias como ovitrampas, sistemas de georreferenciamento e análise de dados podem ajudar as equipes a identificar áreas com maior presença do vetor e organizar melhor as ações.

Outra estratégia utilizada em alguns locais é o controle biológico com mosquitos que carregam a bactéria Wolbachia, que pode reduzir a capacidade de transmissão de determinados vírus pelo Aedes aegypti.

Essas ferramentas não substituem as ações básicas de prevenção. Elas funcionam como complemento ao trabalho das equipes municipais, ajudando a direcionar os esforços para onde podem ser mais necessários.

Febre amarela continua no radar

A febre amarela também exige atenção, especialmente por envolver ciclos de transmissão silvestre e pela possibilidade de circulação do vírus em diferentes áreas.

A vacinação continua sendo a principal forma de prevenção. Atualmente, o SUS oferece a vacina contra febre amarela para a população, seguindo o Calendário Nacional de Vacinação. Desde 2017, o Brasil adota o esquema de uma dose para a população geral, de acordo com as recomendações vigentes.

A vigilância de casos suspeitos e de epizootias em primatas não humanos também ajuda a identificar precocemente possíveis áreas de circulação do vírus.

A prevenção começa antes do surto

O cenário de 2026 mostra que os números podem cair de maneira significativa, mas também que o risco não desaparece.

O Brasil saiu de um recorde histórico de dengue para um cenário de redução expressiva dos casos, enquanto novas condições climáticas e mudanças na circulação dos vírus continuam exigindo atenção. O próprio Ministério da Saúde mantém sistemas de monitoramento para acompanhar essas mudanças e orientar estados e municípios.

Por isso, a prevenção das arboviroses precisa fazer parte da rotina das cidades. Vacinação quando indicada, eliminação de criadouros, vigilância epidemiológica, controle do vetor e comunicação clara são ações que podem ser trabalhadas em conjunto.

Para as prefeituras, o desafio é transformar essas ações em iniciativas que realmente cheguem aos bairros e façam parte do dia a dia da população. Quanto mais cedo um possível aumento de transmissão for identificado, maior é a possibilidade de organizar uma resposta antes que os casos se espalhem.